Ao sairmos de Santa Rita pela estrada municipal rumo ao bairro do Vintém, depois de dobrarmos o morro do mato do Sanico, avistamos, ao fundo, um conjunto montanhoso conhecido como Serra da Manoela.
Ela inicia-se logo após a Serra de Santa Rita, ou da Bela Vista, como também é conhecida, empareda grande parte do bairro do Vintém. É por ali, em um dos colos da Manoela que nasce o ribeirão do Vintém e um de seus afluentes, o córrego do Vargedo. Mais adiante, com um leve contorno à direita, a Serra abraça os Fagundes e continua até o Balaio, onde finda resvalando na serra que dá nome ao bairro. Há quem diga que as Serras do Balaio e da Mamona são uma extensão da Manoela. Se assim for, a Manoela termina nas vargens do Sapucaí, lá pelas bandas de Olegário Maciel.
A Manoela foi nossa primeira fronteira pelos idos de 1830, estabelecendo seus espigões como marco divisório entre as terras das Santas Catarina e Rita. E assim foi, aproveitando o resto da cumeeira, Manoela afora, para marcar nossas divisas com outros santos, como São Sebastião (da Pedra Branca), em 1848, e, mais recentemente, com São José do Alegre e Careaçu que, apesar do nome, já ocupou lugar mais alto no altar dentre os benevolentes acima: Nossa Senhora da Conceição (da Volta Grande).
Manoela… belo nome para um conjunto de montanhas singulares que, de fato, merece tal alcunha. Mas de onde vem tão singelo nome de mulher para essas escarpas que cercam boa parte do nosso município? Em conversa com moradores locais, coletei histórias e causos que me inspiraram a compor a seguinte narrativa:
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Início do século XIX. O ouro que ainda resta em Minas Gerais é escasso. Começa o segundo ciclo de colonização do Estado, quando famílias de agricultores procuram terras para cultivo e tomam posse das que encontram sem dono.
Na Vila da Campanha da Princesa, ponto de chegada e partida de muitos agricultores em busca de terras devolutas, o português José Francisco Machado, vulgo Juca Machado, toma conhecimento de terras disponíveis lá pelas bandas do Sapucaí.
Mulas carregadas de bagagens e mantimentos, escravos puxavam os carroções. Dentro de um deles, muito bem guardado, um tesouro de pele morena, com olhos negros amendoados, herança de índios e caboclos que corria nas veias de Manoela. A beleza rústica da mulher de Juca Machado fazia contraponto com a singeleza e postura da mulher de fala mansa e educada. A mistura de todos esses adjetivos fez com que o português não dormisse por noites depois de colocar os olhos na donzela Manoela, em sua passagem pela fazenda Pitangueiras, nas vizinhanças de Lavras do Funil. Atormentado pela paixão e por noites mal dormidas, Juca voltou no breu da noite a Pitangueiras e levou Manoela com ele.
Dois anos juntos, um casal de filhos, e a paixão de Juca se transformou em ciúme da mulher. Ciúme que virou doença após o nascimento de Juquinha, quando o português proibiu a esposa de sair de casa e de olhar para qualquer homem. Um irmão de Juca, que veio de Portugal, ficou hospedado em sua casa por dois meses sem ver a feição da cunhada. Manoela trancafiada no quarto, só saía da clausura quando o cunhado não estava em casa. A escravaria masculina sofria à revelia. Se Juca suspeitasse que algum dos seus vislumbrara a sombra de Nhá Manoela, o “bacalhau” corria-lhe o couro vinte vezes.
Por sentir o ciúme arder no peito, Juca resolveu procurar um lugar ermo, longe da “cobiça alheia”. E assim foram, levantando poeira de julho, passando pelo povoado de Santa Catarina, tomando dali a estrada para o Mandú, subindo e descendo a Bocaina. Mais adiante, no cume de uma serra, onde um despropósito de vista deslumbrava qualquer um que se atrevesse a olhar à frente, avistava-se o vale do Sapucaí.
Já parados por alguns minutos, admirando a mataria e a paisagem, Juca deu ordem a Rufino, seu braço direito, escravo que virou feitor, para vigiar o carroção de Nhá Manoela e o restante da comitiva. Adentrou, em seguida, na mata fechada, facão em punho, acompanhado de dois escravos.
Uma hora depois, escuta-se o farfalhar de folhas pisoteadas e resvalar de facões nos galhos. Era Juca que, acompanhado de seus escravos, saía da mata exausto. Encontrara, a uma légua mata adentro, uma clareira. Decidira que lá montaria acampamento e ergueria sua fazenda.
Oito anos passados e mais sete filhos. Juca prosperou muito e, na mesma proporção, o ciúme cresceu. O isolamento não lhe fez bem. Agora Juca tinha ciúme até dos dengos de Manoela com os filhos, principalmente com Juquinha, já com 11 anos. Colocou o filho para trabalhar com os escravos, o que Manoela rebateu, mas a palavra do português era a derradeira. Por fim, Juca proibiu a mãe de ver o filho durante a semana e justificou como sendo “bom para o menino crescer como homem!”.
Naquele inverno inteiro o menino ficou na lida, acordava cedo e passava frio, só faltava dormir na senzala. Abatido e acabrunhado com o trabalho e com o modo que o pai lhe tratava, em uma manhã de agosto, Juquinha embrenhou-se na mata e nunca mais foi visto. Manoela, por crueldade do marido, só ficou sabendo do sumiço do filho dias depois.
Manoela, antes enclausurada em casa, confinou-se, agora alienada com sumiço do filho, em seu quarto. Em prantos initerruptos, mirava dia e noite a janela voltada para a mata, em busca de uma sombra do filho amado. Seu choro, fino e baixo como uma miadela, podia ser ouvido a qualquer hora, nas imediações do casarão.
Muitos anos ali, à janela, numa noite de lua cheia, Manoela em delírios entrevê na mata o que crê ser Juquinha. Aproveita-se da ausência do marido, em viagem a Vila Rica, sai de casa correndo e embrenha-se na mata em busca do que pensa ser Juquinha.
No dia seguinte, Eva, mucama de Nhá Manoela, estranha ao não ouvir o choro costumeiro da senhora. Corre então para o quarto da Sinhá e dá por falta da patroa. Percorre, então, todos os cômodos do casarão e nada. Corre em direção ao mangueirão e grita por Rufino:
– Rufino, Rufino, Nhá Manoela não tá em casa!
Rufino corre até o casarão e, logo, na entrada vê rastros que saem da varanda em direção à mata:
– Nhá Manoela foi atrás de Juquinha! deduz convicto Rufino.
Eva desesperada pede a Rufino que chame os outros escravos para procurarem Nhá Manoela antes que o pior aconteça. Rufino, com os olhos fixos na mata, opõe-se:
– Se eu fizer isso, Nhô Juca manda matar todo mundo. Vou buscar Nhô em Vila Rica agora!
Dia e meio a galope, e lá pelas bandas de Congonhas, Rufino encontrou Nhô Juca voltando para casa. Com os olhos espantados Rufino narra ao patrão o ocorrido. Juca, sem pestanejar, chicoteia seu cavalo e parte em disparada, rumo à suas terras.
Mais dia e meio a galope. Ao chegar próximo à sede da fazenda, Juca avista todos os seus escravos à frente do casarão. De um salto pula do cavalo, aponta a mão espalmada em direção da escravaria e ordena:
– Ninguém entra na mata! Somente eu posso procurar Nhá Manoela! Não quero ninguém atrás de mim! Ninguém! Gritou.
Juca Machado, com o coração em miséria, nem na hora do desespero sentiu o ciúme abrandar. Essa mistura de sentimentos o remoía por dentro, num misto de remorso e rancor possessivo. Com essa fúria no peito, entrou cego na mata gritando: “Manoela… Manoela… Manoela…”
Rufino, que chegara à fazenda logo atrás do patrão, tratou de dispersar os escravos, ordenou que voltassem ao trabalho, afirmando que em breve Nhô Juca retornaria com Nhá Manoela. De pronto foi obedecido.
Por alguns dias os escravos escutaram os berros de Nhô Juca ressoando na mata. Cada vez mais fracos e roucos, os gritos foram se transformando em murmúrios e sumindo… sumindo…
Dizem que nunca mais foram vistos. Nem Juca, nem Manoela, nem Juquinha. Nunca mais! Porém, nos dias de hoje, vez ou outra, em noites de luar, os moradores da serra, que foi batizada de Manoela, escutam vindos no meio da mata um choro fino e baixo de mulher, seguidos do ecoar dos murmúrios roucos de Juca Machado: “Manoela… Manoela…”
